2000
No Fly Zone
Numa quasi-instalação, é recriado um campo de tensão onde sujeitos-dinâmicos se substituem ao indivíduo-psíquico, onde presenças conotam ausências, onde a ação é não-reação. Coreograficamente, o recurso a uma linguagem-etiqueta funciona como o esvaziamento de símbolos, neste caso, da própria frase: no fly zone. NFZ surge assim, como um perímetro, um lugar vazio como tantos outros da vida na metrópole. Ou ainda, fronteira ou corredor, lugar provisório contra o perigo.
Né Barros
Ficha Técnica
Direcção e coreografia: Né Barros
Música original: Alexandre Soares
Cenografia: Daniel Blaufuks
Desenho de luz: Carlos Assis
Figurinos: Maria João Sopa
Intérpretes: Elisabete Magalhães, Sara Castanheira, Sónia Cunha
Estreia:Teatro Nacional S. João
Co-produção: Balleteatro e Teatro Nacional S. João
Circulações: Teatro Nacional de São João (2000), Dança em Foco no Rio de Janeiro Brasil (2006), Temp’s d’Image em Lisboa (2006)
Imprensa
Conotações espaciais
Do ponto de vista da sua definição (aquele que pode ser o imaginário colectivo), a No Fly Zone não se pode definir como lugar. Mas como espaço, ela pode ser conotada pelo menos como ÁREA. Corredor, Fronteira, certamente. Enquanto área de interdição, um lugar vazio o que delinea um estado paradoxal: conta-se como ausência de seres que não podem (mas poderiam) povoá-la. É substancialmente na negação de um estado que o mesmo estado se determina. Sem uma hipotética afirmação (fly zone = where to fly is, or are, possible), num tempo diverso (um tempo, uma vez), a sua própria negação seria “concretamente” privada de sentido.
Concreto e natureza do Estado (“estar” em oposição a “ser”?)
Na tua coreografia (“representação” de uma NFZ) o “estado” manifesta-se mediante a presença “absurda” de seres numa área interdita. A “presença que conota a ausência” exprime já de modo exemplar o paradoxo referido: a negação que em si necessita de pelo menos de uma sua hipotética afirmação. A coreografia “afirma”, creio, portanto a sua “negação”. Fá-lo elaborando a qualidade da presença enquanto qualidade de uma ausência: presença de corpos (sempre! Do início até ao fim) corpos reduzidos a linguagem-etiqueta (a sua objectivação no dar forma às letras que compõem a definição do lugar) ou, melhor ainda, diria, corpos que “des-colam” (colam-se ao objecto para descolar a sua própria presença-ausência), que se exprimem (premem para o exterior) ou que se negam para afirmar (no plano verbal) a sua condição, a sua própria natureza. Corpos que, de facto, não “comunicam” mas produzem interação pela co-habitação talvez nem escolhida, nem imposta, ma simplesmente dada. A assunção de um estado (aquele da NFZ, obviamente na sua abstração) é por si um elemento que dinamiza, que determina num plano da fisicalidade a necessidade da constante “reinvenção no seu próprio movimento” corpos, portanto, (mas também “seres”, enquanto “viventes”) que determinam o seu estar no tempo (o seu instalar-se): separados (individualidade?), mas ao mesmo tempo unidos (coralidade?) na sua sorte ligada aquele lugar que é a NFZ (mas também aquela ainda mais importante de ser corpos!). Corpos, enfim, que dançando (realçando o “vôo”, coreograficamente falando) compõem a afirmação necessária à definição da negação, daquele “NO” do título.
Dinâmicas vitais (a Dança como metáfora do vôo…)
A presença de vários “sujeitos” (de facto a tua escolha não passa por aquela de um solo, mas pela possibilidade de uma multiplicidade de solos) é vital até para o singular que não é nunca reduzido a “sujeito psíquico” (patológico) mas em “sujeito dinâmico” no qual o espectador pode descarregar as suas “tensões psíquicas”. Para o espectador, creio, não lhe pode ser um verdadeiro e próprio processo de identificação total (na maior parte dos casos o seu corpo não lhe consente!). No máximo pode-se sentir atraído deste lugar! Neste sentido a NFZ funcionaria não como “lugar do qual se quer escapar”. Ao contrário: um lugar no qual cada um gostaria estar, pelo menos por um pouco! A negação de uma ação (proibição) produz o desejo da transgressão da regra (com o conhecimento que o risco se torna um fator fundamental para o superamento dos próprio limites). No paradoxo dos termos implícitos na elocução “no fly zone”, todos queremos ser pássaros para voar numa zona na qual o vôo (assumido numa conotação nefasta e destrutiva: aquele perigo, do conflito, do suspeito) torna-se finalmente repudiado.
Queremos todos talvez estar naqueles corredores de não beligerância produtos de um máximo dum conflito bélico. Porque são áreas de vazio, sim de risco, mas nas quais o simples estar pode-nos ajudar a sentir a ser.
A coreografia, em última análise, é talvez isto que nos diz. Mas não só. Diz-nos talvez também do sobre o nosso estar mais propriamente quotidiano no/através do nosso corpo, sobre aquela fisicalidade que concretiza o nosso mesmo ser através do estar: caminhar, sentar-se, assumir determinadas posturas, concretizar pequenos gestos (na coreografia existe um nível, aquele da “dança concreta”, no qual é fortemente dado a todos de se reconhecerem). Este é um estar/ser profundamente radicado no nosso corpo em ação (mesmo quando o corpo escolhe o silêncio do gesto). Neste sentido, a coreografia restitui-nos aqueles “micro-ritmos de vida” que apenas a dimensão notória nos pode dar. Se a coreografia pode comover-nos é porque nos oferece a oportunidade de movermo-nos com. E fá-lo!