2016
Co:Lateral
CO:LATERAL foi desenvolvido a partir do projeto performativo Nuve onde se explorava a relação entre a dança e as artes digitais. Inicialmente apresentado em 2010, este solo interpretado por Né Barros, deu origem a diversas publicações nacionais e internacionais. Ali, o corpo projetava-se e estendia-se numa relação de intimidade com a realidade virtual interativa. O discurso performativo resultante desta ligação, apela a um momento extraordinário, a um momento poético feito de espaço e corpo, feito de mistura de realidades, feito de duplos e de imagens.
Ficha Técnica
Direção e coreografia: Né Barros
Criação digital: João Martinho Moura
Musica e Desenho de Luz: João Martinho Moura
Figurinos: Né Barros
Intérprete: Sara Maru (2016); Sónia Cunha (2017)
Produção: Teresa Camarinha (2016); Lucinda Gomes (2017)
Fotografia: Raúl Sousa
Duração: aprox. 30 minutos
Circulações: Arquipélago | Açores (2016), Coliseu Porto Ageas (2017), Covilhã (2018), Teatro Virgínia (2018), Teatro Circo, Braga (2018), Teatro Municipal da Guarda (2018), Cineteatro Municipal João Mota / Sesimbra (2019), Art & Tech Days, Kosice, Eslováquia (2019), Festival Temps D’Images, Lisboa (2019), Teatro Sá da Bandeira- Santarém (2019), Teatro Aveirense (2020), Teatro-Cine Torres Vedras (2021)
Imprensa
Outras Gravidades
No próximo dia 23 de outubro, no Cine-teatro de Torres Vedras, a coreógrafa Né Barros apresenta CO:LATERAL, uma peça produzida pelo Balleteatro em que a luz impregna o corpo da intérprete Sónia Cunha em ritmos digitais concebidos por João Martinho Moura.
O Balleteatro – dirigido por Né Barros e por Isabel Barros – tem na História da dança contemporânea em Portugal um lugar incontornável, permanente e persistente, não apenas como espaço de criação e de miscigenação de linguagens, mas também enquanto lugar de formação. Desde 1983, data da sua fundação, mas sobretudo após a sua reestruturação nos anos 90, há que reconhecer o impacto assinalável na formação dos artistas da dança e da performance sobretudo no norte do país. Trata-se pois de uma verdadeira incubadora em
artes performativas, versátil e atuante.
Neste contexto, Né Barros tem uma longa e persistente carreira na exploração da linguagem da dança, trabalhando-a a partir dos corpos, das suas imensas possibilidades de movimento, mas também combinando-a com linguagens de outras disciplinas, como o teatro, a música, as artes plásticas e o cinema, e finalmente ensaiando novas ferramentas. Para tanto, no processo criativo, Né Barros pode partir e combinar referências literárias, plásticas, científicas ou filosóficas e colaborações de outros criadores.
As duas peças de que aqui se dão notícia ilustram o trabalho exploratório da coreógrafa. CO:LATERAL é, conforme já foi referido, uma proposta que, graça sàs novas tecnologias digitais e à manipulação de software de luz e vídeo para palco, proporciona a imersão do espectador em fluxos de pontos, linhas e formas. Nesta peça, a referência ao cisne, figura emblemática do ballet clássico, transmuta-se em fotões trémulos e breves. Com efeito, tratando-se de um projecto em formato mutável (capaz de variar em cada apresentação), a versão programada para o teatro-cine de Torres Vedras evoca momentos da morte do cisne, imerso num espaço imaterial de luz e projeção.
A outra peça de que aqui se dá notícia é IO, estreada no dia Mundial da Música, 1 de outubro, e programada para ser apresentada a 4 de dezembro no âmbito do 20o aniversário do festival Dans6T, em Tarbes, França. Trata-se de um trabalho que nas palavras da coreógrafa se move entre “Paisagens, Máquinas e Animais”. O título IO transporta-nos para uma das grandes luas de Júpiter, agenciando simultaneamente uma gravidade, uma temperatura e um magnetismo não terrestres. Evidentemente que, sendo a peça feita sob o efeito da nossa gravidade, o processo de agenciamento resulta de artifícios gerados pela combinação de sonoridades (compostas por José Alberto Gomes), do dispositivo cénico (de Flávio Rodrigues e Né Barros) e dos movimentos dos intérpretes Beatriz Valentim e Bruno Senune. Da simbiose desses elementos resulta uma experiência que transporta o espetador para outros mundos sem sair do mesmo. O extremo vulcanismo de IO, visto pelos olhos dos criadores, reflete-se num triângulo de arestas efémeras, duplicado num reflexo que desafia a divisão entre o que está acima e o que está abaixo. Este espaço, repleto de sons magnéticos, contém fluxos, capazes de perfurar arestas e desvanecer formas. Nesta atmosfera, o início da peça mostra como o simples ato de abrir os olhos ganha uma intensidade perturbante. Então, todos os gestos dos corpos, amplificados e dialogantes pelas sonoridades permanentes (como permanente seria a presença tutelar de Júpiter), revelam-se zonas de intensidade.
Daniel Tércio
in Jornal de Letras, Artes e Ideias, 20-10-2021