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2018

Revoluções

© Pedro Figueiredo

Revoluções, a nova criação de Né Barros, cruza coreografia, instalação, imagem e música e conta com a participação do coletivo Haarvöl e da Digitópia da Casa da Música. 

Todas as razões para fazermos uma revolução estão aí. Não falta nenhuma. O naufrágio da política, a arrogância dos poderosos, o reinado do falso, a vulgaridade dos ricos, os cataclismos da indústria, a miséria galopante, a exploração, o apocalipse ecológico… de nada estamos privados, nem sequer de estar informados de tudo isto…Todas as razões estão reunidas, contudo, não são as razões que fazem as revoluções; são os corpos. E os corpos estão diante dos écrans. 

Comité Invisible

Como uma reverberação, as revoluções circulam neste espetáculo feito de camadas de memórias e de evocações artísticas e sociais. Revoluções da dança, da música, sociais e políticas vão despontando ao longo do espetáculo não aprisionadas numa cronologia histórica, mas em livres cruzamentos e justaposições temporais e temáticos. Alguns movimentos de vanguarda ou de gestos icónicos são convocados neste espetáculo, composto numa longa sequência como uma espécie de imagem cinemática onde corpo é protagonista, afinal motor de todas as revoluções como nos lembra os Comité Invisible. Neste andamento de evocações de mudança íntima e coletiva, o trabalho evolui de uma utopia (corpos movem-se em direção ao lugar onde tudo é possível, o palco) ao trauma (o retorno ao corpo através da nudez), que caracteriza muitas vezes o pré e pós-revolução.

É também deste modo que a intervenção dos Haarvöl se caracteriza: primeiro momento, antecâmara do espetáculo, o som que se propaga no pré-espectáculo; um segundo momento, a realidade e a pragmática da ação durante o espetáculo; um terceiro momento, o pós-espetáculo, a mesma instalação sonora, mas a música, agora, difere, evoca-se a fuga e o trauma. Revoluções conta ainda com uma seleção musical trabalhada em colaboração com a Digitópia, grupo ligado à Casa da Música. Da evocação de Eno a Reich, passando por Stockhausen, Parmegiani e Cage, a música vai reforçando uma dramaturgia de cruzamento e de deslocação, onde o sonho e o rumor tenham lugar.

Ficha Técnica

Direcção e Coreografia Né Barros
Instalação sonora e vídeo: Haarvöl
Música: Worten Digitópia, com temas originais e execução de obras de Parmegiani (Pop Ecletic), Stockhausen (Studie II), Cage (Sonatas 1,2,3,5 para piano preparado) e Reich (Pendulum).
Direcção musical: José Alberto Gomes
Piano: Duarte Cardoso
Desenho de luz: José Álvaro Correia
Intérpretes: Deeogo Oliveira, Elisabete Magalhães, Francesca Perrucci, Hugo Magalhães, Júlio Cerdeira, Sónia Cunha
Figurinos: Né Barros e Manuel Casimiro
Produção: Lucinda Gomes
Coprodução: Rivoli Teatro Municipal, Balleteatro
Comunicação: Sandra Mesquita
Fotografia: Pedro Figueiredo
Design: Telmo Sá (Estúdio Ás)
Apoio à residência artística: 23 Milhas (Ílhavo)
Duração aproximada: 60 min
Classificação etária: M/ 12 anos
Circulações: Teatro Municipal do Porto – Rivoli (2018), Ilhavo, 23 milhas (2018), Theatro Circo Braga (2019), Convento de São Francisco, Coimbra (2019)

O espetáculo insere-se no programa de atividades de investigação do Grupo de Estética, Política e Conhecimento do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto.

Dossier do espetáculo

Imprensa

Unwritten Rules of a Ceaseless Journey by Haarvöl + Xoán-Xil López

A startlingly effective drone runs through the new collaboration between Galician artist Xoán-Xil López and the trio Haarvöl (Fernando José Pereira, João Faria, and Rui Manuel Vieira) on the three stilling pieces on Unwritten Rules of a Ceaseless Journey. In 2019 to date, this is by far, my favorite record. It’s a bit breathtaking and hard to write about as I listen. The track The Pulsating Waves (Reality) calls for more of a lateral experience since the mediating tones are as sublime as subliminal. These works touch on three nearly intangible states of mind: utopia, reality and trauma – in that order. The first two really find a perfect balance even while referencing impossible texts such as The Utopian Function of Art and Literature (1964), and making references to “cataclysms of industry, rampant misery, naked exploitation, the ecological apocalypse“. Oh, such is the everyday.

Though their collaboration juxtaposes the sense of euphoria that comes with hovering drones by imposing the concept of all variants of time: past, present, and future. This work documents pieces composed for dance (Ballet Teatro‘s Revoluções) by choreographer Né Barros. Field recordings abridge electronics somewhere in the middle and the pairing of this quartet of creatives is genius. And by the end of the second part it’s as though we’ve been through some sort of industrial cleansing.

As Don’t Look Back, Run (Trauma) opens somewhere in the darkened orchestral corners, the setting sort of falls to the depths of the soundstage as if falling away into space. The bare bones percussion is uniquely minimal and the waveform is set back, drifting moderately. About one-third through you hear what sounds like strings calling out, wavering a bit as if sending an encoded distress signal. López has taken this amalgamated tale to a secret place while upending the tension with the harmonics of Haarvöl. While a rotor seems to be at play the bereft refrain continues through until nearly the end, and after fading from earshot the listener is left with something pressurized that seems to be sinking away into some sort of watery depths. You can easily imagine bodies (dancers) undulating into darkness.

TJ Norris, 08.04.2019, IN toneshift.net