entrevista · 2023
Entrevista a Né Barros por Roberto Seller
Né Barros, Roberto Seller
1. Em que ponto se encontra a palavra interpretação na evolução de um bailarino?
O âmbito da interpretação é, como sabemos, muito vasto e complexo. Tendemos a reduzi-lo, por vezes, às competências de execução associando-as a uma expressividade mais ou menos singular. No entanto, interpretar, em minha opinião, requer muito mais porque reclama a criação de um universo para aquele gesto, para aquele corpo dançante. Há como que uma microficção que se desenvolve e que se conecta com um conjunto de gestos, tornando indissociável o valor do gesto com a sua história. No fundo, gera-se uma memória específica com um dado fazer. Essa memória é o que permitirá resgatar esses gestos mesmo que seja muito tempo depois de os ter realizado. Para mim, este processo deve estar lá desde o primeiro momento em que se começa a trabalhar. Partir para uma improvisação ou para uma reescrita de material coreográfico, precisa de ser instalado, desde logo, um ambiente, um tom, uma força que guiará toda a performance.
Interpretar, neste âmbito, é compreender de uma outra forma o que nos é solicitado e transformar essa informação em algo íntimo e subjetivo.
2. Que qualidades deve ter um Bailarino/Intérprete?
Uma das qualidades que os coreógrafos apreciam é, sem dúvida, a disponibilidade. Estar aberto é estar atento e curioso, mas também em ceder na sua própria personalidade. Havia uma frase de um filósofo que gosto muito, Michel Serres, e que dizia que dançar é ceder o passo e o lugar. Ceder também na narrativa que criamos sobre nós próprios é fundamental nesse ato de interpretar. Tentar conquistar, não necessariamente um neutro, mas um estado límbico de poder tornar-se “outro”. Claro que ter a capacidade de dominar o corpo tecnicamente, poder usar o corpo de forma desafiante, não apenas virtuosamente, mas desafiar o corpo nos seus hábitos e costumes, é uma qualidade que aprecio também. Nunca procuro corpos com determinadas características definidas a priori, interessa-me mais o complexo do indivíduo em si. Mas poderia referir que rapidez de compreensão dos problemas que se vão estabelecendo no processo coreográfico é também algo que aprecio muito, em particular, se essa compreensão se materializa em qualquer coisa que me surpreende. Convém perceber que em função de cada poética, as qualidades que se procuram nos bailarinos serão diferentes.
3. O ato de interpretar uma peça de coreógrafos é subjetivo? Depende do método dos coreógrafos em que a peça é criada?
Tratando-se de arte, só poderemos abordar questões do ponto de vista não-positivista. A execução mais identificável pode ser aferida com alguma precisão a partir de desenho do corpo, tipo de progressão ou dinâmicas. Contudo, essa execução é apenas uma camada da interpretação, não diria um primeiro patamar porque não há necessariamente um antes e um depois, um degrau exatamente antes de outro degrau. Por vezes, a evolução é feita de simultaneidades, por saltos ou por avanços e retrocessos. Dizia, a performance final, o estado amadurecido é um percurso individual e criativo. A discussão sobre interpretação na dança só poderá ser aproximativa.
4. Considera um Dançarino/Intérprete também um criador/compositor de movimento?
Creio que com as respostas anteriores se percebe que sim, considero um bailarino um criador. O grau com que o bailarino se revê como compositor de movimento é que pode variar. Há coreógrafos que trabalham mais com material que preferem transmitir de forma mais direta e, neste caso, o bailarino realiza esse material nos limites do seu potencial, recriando-o e adaptando-o, isso é inteligência criativa aplicada, é criação. Outros coreógrafos trabalham mesmo a partir de material que os bailarinos produzem em sucessivas improvisações, a produção de movimento como criação. Nestes casos, é absolutamente claro o papel de compositor de movimento que o bailarino tem, mesmo que o objeto final seja divergente do realizado. O coreógrafo tem uma matéria primordial que é o corpo em movimento, o corpo em gesto, esse corpo desde logo define os limites do percurso coreográfico ou mesmo o nexo da composição. É preciso perceber que a composição final é feita de diversos e múltiplos tipos de composição.
5. Como considera a sua evolução pessoal neste caminho como Bailarina/Intérprete e como se tem desenvolvido até hoje?
Considero que o meu trabalho como coreógrafa está intimamente ligado ao de bailarina. Apesar de ter optado muito cedo por estar sobretudo do lado de fora do palco, toda a minha experiência estética e coreográfica encontra um motor no meu corpo. Como processo de trabalho, realizo muitas improvisações a solo e analiso. Quando estou com os bailarinos, trabalho sobre um método que desenvolvi e que lhe chamo familiaridade de movimento onde a construção de uma memória visual e experiencial de movimento está em jogo.
6. Quando é que notou que a sua verdadeira autenticidade em movimento começou a florescer? Que ferramentas/estratégias, se as houver, usou para evoluir a partir deste ponto?
A minha principal pesquisa foi e é a de entender o que um corpo em dança pode no domínio do fazer e da representação do mundo. Sabemos que do ponto de vista do real, a parte documental pode encontrar noutras áreas artísticas outras abordagens mais eficazes, como no cinema, por exemplo. Na dança, esse lado documental-real vive sobretudo ao nível da interioridade do intérprete. Assim, a minha pesquisa levou-me à paisagem e à paisagem inteligente como noções fundamentais que aproximavam as realidades de real e do ficcional (dançante). Como um optimum de representação. A dança não tem território e daí a importância que encontrei na noção de paisagem como ligação do mundo real ao mundo da representação. Do ponto de vista mais pragmático, poderia dizer que depois de ter percebido qual era a minha zona preferencial de exploração do corpo dançante, do ponto de vista de técnicas de dança, tentei desenvolver métodos de trabalho que me permitissem multiplicar as possibilidades sobre um corpo no seu movimento, torná-lo um corpo mais imprevisível, e sobre o lugar do corpo na paisagem. A minha principal preocupação situava-se em encontrar o ambiente certo que justificasse aquele corpo naquele movimento. Criar um universo próprio e afim ao que se estava a produzir, era o meu foco principal. Claro que existem sempre histórias, memórias e experiências que criam o lugar onde nos iremos mover, mas a transformação dessas vivências gerará outros lugares, por isso, a autenticidade é sempre fruto de transformações daquilo com que nos vamos cruzando.