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2019

IO

Landscapes, Machines, Animals

© Pedro Figueiredo

IO is the first piece in a series of works by Né Barros that move between Landscapes, Machines, Animals. IO recalls for introspective sounds, mythological forms and the animal-body.

Credits

Direction and choreography: Né Barros
Music: José Alberto Gomes
Assistent: Flávio Rodrigues
Dancers: Beatriz Valentim and Bruno Senune
Saxofonist: Henrique Portovedo
Light design: José Álvaro Correia
Set and costumes: Flávio Rodrigues and Né Barros
Producer: Lucinda Gomes
Residency: Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas
Production: Balleteatro
Support: Coliseu do Porto Ageas
Thanks: Teatro Municipal Rivoli
Duration: 50′
Age rating: M/12
Tours: Coliseu Porto Ageas (2019), Arquipélago, Açores (2019), Cine Teatro de Torres Vedras (2020), Teatro Sá da Bandeira- Santarém (2020), Teatro Municipal da Guarda (2020), Teatro Municipal do Porto – Rivoli (2021), Festival DANS6T / Studio du Parvis (FR) (2021), Museu Nacional Soares dos Reis (2023), Festival ArgoJazz-ArgoDanza (Itália) (2025)

Performance dossier

Press

A Brutalidade do Sensível

Atravessar o corpo com exterioridades, com mundos por vir. Redimensionar o passo humano ao estranhamento e encantamento, à volúpia e vulnerabilidade, à indeterminação e perplexidade. A série Paisagens, Máquinas, Animais, de Né Barros, desdobra-se e multiplica-se em IO (2019) e Neve (2022), e em breve, Quinta-feira à Tarde (2023). Com escritas coreográficas distintas na sua leitura axial, a íngreme verticalidade espaciotemporal em IO contrasta com a transitória horizontalidade em Neve. Em ambas as peças, a plasticidade incorporada pelos intérpretes é de uma performance exímia e dilacerada, de fluxos de desencontros e fragilidades, de voos rasantes e errantes.
Em Neve, percorre-se uma sucessão de dimensões arquitetónicas e afetivas intermediadas por processos de transdução através das diversas colaborações multidisciplinares de Né Barros. A mutabilidade do dispositivo cénico de FAHR 021.3, em conjunção com o desenho de luz de José Álvaro Correia, é de um minimalismo subtil e desmesurado, delimitando a máquina teatral a planos e recortes, como recurso infindável de evocação de espaços privados e públicos, ficcionais e abstratos, para diferentes escalas humanas e aberturas para o mundo. A composição musical de Carlos Guedes expõe-nos a ciclos de compressão e entropia, desmultiplicando-se por diferentes atmosferas e ritmos sonoros. Por vezes, são de uma absorção centrífuga, expandindo e sacralizando o dispositivo espacial a outras temporalidades, e noutras vezes, desampara-nos nas alucinantes respirações musicais e melódicas da flautista, que ocupa uma presença condutora de relevo, ora pela suspensão da transição entre paisagens, traçando possíveis percursos, ora na espacialização sonora de harmonias que expandem a elasticidade e afetação da conceção espacial. Nesta veiculação entre espaços, os corpos dos intérpretes desocupam-se para serem habitados em viagem numa incessante perseverança na efemeridade do gesto, num movimento de uma só direção, mas de múltiplos sentidos. Sem um olhar para trás, sem um reavaliar dos seus posicionamentos, estes corpos acionam e processam a sinergia do dispositivo cénico em diversas cartografias paisagísticas. O que é uma paisagem? Como é que a percecionámos e habitámos ao mesmo tempo? Como é que experiencialmente se constitui? Aqui, a prática discursiva de Né Barros questiona, desconcerta e indisciplina as percetibilidades do olhar, para voltar a ver o que não se vê como ainda não tínhamos visto, instigando a perceção como uma performance em si mesma.
Existe uma presença nómada nestes corpos, uma espécie de ostentação de compostos de vivências errantes e poéticas voláteis, em que estes evocam distintos territórios, provindos das inflexões geradas pelas curvas de interseção entre música, dispositivo cénico e dança. Os intérpretes, Beatriz Valentim, Bruno Senune e Afonso Cunha, em deslocação e deslocados, desvendam a extensibilidade dos espaços com voos rasantes à cristalização do que é reconhecível. Desassossegados e resilientes, eles mantêm-se porosos como a neve, absorvem, mas não alteram forma nem estado físico com o que lhes é exterior, eles são essa exterioridade e sintetizam eloquentemente as suas próprias experiências, evocando memórias reminiscentes de outras temporalidades, transformando-as em imagens não apaziguadas e intermitentes. Em deslocamento, é observável na performance dos intérpretes um delírio com o arquivo experiencial dos seus corpos. Estes não petrificam a sua gestualidade, mas transbordam em si movimento e imagens, ou seja, reiteram exaltadamente a sua experiência difrativa e configuram a constituição dinâmica de uma paisagem. Nos planos fílmicos de Filipe Martins presencia-se a excessividade destes corpos na transferência para o real ficcionado. Eles são absorvidos como aberturas para horizontes sensíveis e restituídos pelas arestas em que o íntimo encontra a paisagem, o exterior desacelera a viagem e a memória resiste ao teatro. Neve estende-se nesta transitoriedade múltipla de imagens em movimento, em que, com a conceção e implementação de um dispositivo cénico transmutável, a escrita coreográfica propõe-se a uma reversão do ponto de fuga da paisagem, como se o olhar viesse de longe para perto, numa vertigem invertida, expandindo a sensação de quase-paisagem numa duração de algo por vir.
A série Paisagens, Máquinas, Animais iniciou-se com IO, peça estreada em 2019 no Coliseu do Porto e que mantém vários pontos de contacto com Neve. No entanto, confere toda uma outra abertura a esta série, em que os corpos como paisagem se enunciam-se nomeadamente como carnais, disfuncionais e mitológicos. Em IO, o dispositivo cénico integra a audiência em laterais opostas, e os intérpretes encontram-se permanentemente em palco, sem entradas nem saídas, sitiados no espaço cénico e propondo uma leitura da peça na sua verticalidade, estratificada pelas diferentes temporalidades, que nos afundam quando o Animal invoca o corpo e nos elevam quando a Máquina invade o corpo. Tal como em Neve, os intérpretes localizam-se em trânsito, indeterminados e ininterruptos, mas em IO as linhas de força da escrita coreográfica são centrípetas e intensificam o magnetismo da atração repulsiva entre os dois corpos. Estes quando se encontram não se alinham, o sentido da gestualidade de cada um não encontra o seu fim no outro, desarticula-se. Esta incomunicabilidade no apelo do corpo à Máquina e ao Animal, entre Beatriz Valentim e Bruno Senune, oscila persistentemente entre qualidades sensualmente brutas e primitivas, e em paralelo, desprendidas e empáticas. A composição musical de José Alberto Gomes mitifica estas propriedades corpóreas através da manipulação tímbrica de um saxofone barítono, e conduz os dois intérpretes numa deriva hipnótica e propulsora dos índices que tanto nos remetem para um especulativo futuro de ficção tecnológica, como para um passado ancestral comum. E é na sobreposição destas duas temporalidades que o dispositivo cénico de Né Barros e Flávio Rodrigues é concebido, constituindo-se por geometrias e matérias brutas, que perfazendo triângulos que erodem com o tempo, linhas vibrantes e outras configurações relacionais entre os corpos e o exterior. Ao longo da peça, os corpos acumulam nas suas peles os traços do desgaste e da iteração com os elementos cénicos, aculturam-se pela permanência nesse espaço a partir de gestos que são vestígios de outras temporalidades. O que inicialmente era um lugar, dois corpos verticais dentro de um triângulo, no fim passa a ser paisagem, uma superfície de fluxos de transferência entre lugar e corpo, experiência e memória, perceção e dança.
A multidisciplinariedade dos dispositivos coreográficos, que Né Barros estrutura para as suas vertiginosas e estonteantes paisagens desta série, é incrivelmente complexa e diagramática, de uma obsessão apaixonante pela dança como potência, e privilegia, sobretudo, um lugar emancipatório ao espectador, convocando-o a reivindicar a sua experiência sensível e política num plano aberto, num espaço de perceção e pensamento de um estar no mundo. A abertura, instabilidade, fragilidade e brutalidade com que a performatividade da sua escrita coreográfica se torna visível reside, aqui, no paradoxo do excesso ser o seu interior, em que o corpo se expande e desmultiplica como uma superfície difrativa das suas exterioridades.

Jorge Gonçalves (curador, professor e coreógrafo)

 

Chorégraphe, danseuse et cofondatrice du Balleteatro de Porto, Né Barros signe un ouvrage singulier. IO est le premier volet d’une série née en 2019 intitulée Paysages, Machines, Animaux.
Sur le sol du plateau un parfait triangle de poudre blanche compose une scénographie extrêmement pure. C’est tout d’abord dans cet espace que Beatriz Valentim et Bruno Senune interprètent une chorégraphie dont les corps expriment un coté sauvage et animal. Accompagnés en direct par le saxophoniste Henrique Portovedo, les deux excellents danseurs se lancent dans une joute où la femme évoque son indépendance et sa puissance. Le son du saxo baryton apporte une sublime voix supplémentaire à cette dualité.
Une danse très souple, un jeu des corps parfaitement maitrisé alors, qu’en s’éloignant du triangle, les interprètes étalent cette étrange poudre. En décollant le scotch qui définissait la figure géométrique, Beatriz Valentim l’élève au dessus d’elle et fait apparaitre une parfaite pyramide.
Une pièce étrange, envoutante, très esthétique qui interroge sur le rapport homme/femme avec une note très personnelle de la chorégraphe portugaise.

Sophie Lesort / Danser Canal Historique