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entrevista

Entrevista a Né Barros por Inês Barreto de Faria

Né Barros, Inês Barreto de Faria

Sendo os estudos artísticos uma área de acesso tão difícil, como tem vindo a evoluir a adesão dos alunos a estes cursos?
É um sinal sem duvida de uma evolução em termos de perspectivar não apenas o “emprego”, mas o modo de vida. Nas sociedades chamadas mais desenvolvidas, as artes fazem há muito parte dos currículos académicos. As graduações e pós-graduações em artes têm um longa histórica, em particular, nas zonas anglo-saxónicas. Mas tudo se disseminou e hoje em dia é tão natural estudar teatro como engenharia. Não existe neste momento uma correspondência entre o tipo de curso e emprego garantido, isso mudou e continua a mudar. As artes são percebidas como algo necessário à humanidade, assim como, tantos outros saberes. O mito do “artista” ou da sua imagem já não é de todo a mesma ideia romântica. A arte é trabalho…

Na atual conjuntura económica, como é que a Escola se tem mantido? Isto é, são notórios os cortes no orçamento? Comprometem, de alguma forma, a qualidade do ensino?
Atualmente, e infelizmente, vive-se um momento complicadíssimo para o ensino, e lá está não é apenas para o artístico. Os cortes foram na ordem dos 30 % isto para não falar dos apoios via dgartes que foram de 38%. Claro que isto afeta toda a estratégia e tipo de investimento. Não é possível fazer omeletas sem ovos, como se sabe. Contudo, não cruzamos os braços, como de resto estamos habituados, e estamos a fazer diversos esforços com o apoio de todos para que o projeto mantenha o nível de qualidade pelo qual se pauta. Mas a esperança é que em breve as coisas se alterem para melhor…

Como se poderá justificar o facto do Porto ser a cidade com mais escolas artísticas, já que estamos a falar de uma cidade que, apesar de ser a segunda maior, não é a capital?
O balleteatro foi a primeira escola profissional de teatro e de dança no Porto, 1989. Houve aqui um trabalho absolutamente pioneiro no incremento e desenvolvimento para as artes do espetáculo. Antes existia apenas um curso de Teatro na ESAP (ainda ligada à Arvore) e cursos de teatro amador ou de estudantes. Só nos anos seguintes é que surgiram outras escolas. Creio que o Porto sempre foi uma cidade que beneficiou de talentos e vocações para as artes. São muitos os exemplos, o que aconteceu é durante muitos anos as pessoas acabavam por emigrar, mesmo para dentro do próprio país, isto é, Lisboa. As ultimas duas décadas foram crescendo no sentido de começar a haver mais apoios, pensemos no ex-Getap , Ministério da Educação, ou no lançamento de um Ministério da Cultura com Manuel Carrilho. Foram contributos importantes que no fundo vieram dar força à capacidade, às vontades e iniciativas que já existiam a fervilhar na cidade.

A debilidade na área cultural portuguesa tem alterado, de alguma forma, o nível de produção artística?
Não sei a que se refere quando diz “debilidade”, se for no sentido do desinvestimento por parte dos governos nas artes, sim concordo que afeta a quantidade e diversidade na produção artística. Faz ainda algo que acaba por ser uma enorme desvantagem a várias frentes, isto é, ao haver menos dinheiro as produções tendem a ser mais pequenas com menos gente e assim: não se promovem com dignidade carreiras de interpretes a médio prazo; oferece-se menos trabalho e por isso menos entrada de impostos; obriga-se a que artistas interpretes tenham que ser encenadores e coreógrafos à força das circunstâncias; se testem apenas formatos de pequenas dimensões, que é importante, mas não apenas, deixa-se de se testar e crescer com projetos mais ambiciosos muitas vezes fundamentais para a internacionalização. E muito mais haveria a dizer. Como disse, esperemos que seja uma fase passageira.